A imagem está intimamente ligada ao seu objeto, ou a sentimentos que esse objeto, no caso o ser humano, deseja expressar ou comunicar. Nas relações virtuais, a imagem é tão ou mais importante do que as palavras. Tudo que pretende comunicar ou ser público é muito bem trabalhado para que atinja o seu objetivo, seja por uma estética impecável ou pelo hiper-realismo. Não há na construção virtual de um “ser” a pretensão de ser original ou autêntico. A originalidade pode existir desde que comunique aquilo que se pretende ser, e não o que realmente se é de fato, portanto, fruto de um trabalho estético às vezes primoroso para transferir a imagem virtual a perfeição que não existe e que jamais existirá em se tratando de seres humanos. Não é uma tarefa fácil manter uma postura virtual impecável, já que todos têm os seus dias ruins ou muito ruins. Os que realmente querem manter as suas vidas virtuais impecáveis, jamais contam um “pecado”, pois isso pode condená-los a um desmascaramento não desejável, colocando-os como seres imperfeitos nesse meio das redes sociais, onde não é possível ser infeliz. No máximo as pessoas podem ser melancólicas, o que atrai a atenção de outros que se julgam os salvadores das “almas penadas” e necessitadas de atenção nesse mundo que já não é tão admirável e nem tão novo.
Sendo assim, depois da construção dessa imagem inabalável, as palavras, ou poucas palavras, têm que estar de acordo com todo esse emaranhado de vida eternamente feliz, sem choro, sem tristeza, e de preferência sempre alto astral, o que é humanamente impossível. É um mundo onde quase todos tentam ser politicamente, ecologicamente, moralmente e sexualmente “corretos”. Tudo o que é considerado lindo é largamente compartilhado sem que haja uma visão crítica ou discernimento do que está sendo divulgado. Se a pessoa gosta ou não do que está compartilhando, isso é o menos importante, pois o que interessa é ser “igual”, é estar de acordo com uma maioria burra que não se dá ao trabalho de pensar antes de meter o dedo no teclado e “curtir”, “compartilhar”... Lamentável.
Mas o comportamento virtual pode fugir a esse padrão esteticamente engessado, e é aí que nem tudo é tão bonito. Não há muito espaço no meio virtual para quem é autêntico, pois a sociedade hipócrita não aceita ou te acusa com olhos arregalados por você não ser polido, por você expressar o que você quer com uma estética diferente da que a que é exigida nesses meios geralmente intelectualmente empobrecidos. Todos têm a opção de ser quem realmente são nas redes sociais... Essa é uma grande mentira. Como ser original, franco e não medir o teor das suas palavras diante de um público que normalmente você só conhece 5%? Simples, sendo um Kamikaze social, uma verdadeira suicida social. É nesse grupo que eu estou e é por isso que de tempos em tempos saio das redes, já que a maneira como me expresso não é aceitável, o que pode até comprometer algumas pessoas que dependem de mim.
Mas, por que é que não se pode ser o que é? Por que o que falamos pode atingir alguém que não é responsável pela força que empregamos em nossos textos, em nossas palavras? É um emaranhado de relações que não te dá uma brecha para ser apenas você, pois não somos uma ilha. Mas que inferno! O ser humano não é uma ilha, mas pode tornar-se ilha ao entrar numa rede social e não poder ser o que ele realmente é.
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